Prisões

rené magritte the lovers
No trabalho, uma conversa dos novos estagiários lhe chamou a atenção. Um deles vangloriava-se de ter ido muito além do menage. E o outro, murmurava entre os lábios todo o prazer que vinha colecionando desde que conhecera aquele lugar. Era simplesmente fantástico – uma espécie de clube do sexo. Antônio, olhando de soslaio e todo ouvidos, quase morreu de curiosidade.
Um dia, sem pensar nos porquês, reuniu coragem para enfim escapar da condescendente esposa e descobrir.
Abriu a porta. 
Era uma verdadeira balbúrdia à meia luz. O suor dos corpos transportava às narinas acidez. Antes que se entorpecesse, procurou o bar e serviu-se de uma dose. Sentou-se e observou. Nus. Todos nus, atuando no balé voluptuoso que lhe chamava à vida. Embora ainda não soubesse exatamente como proceder, sucumbiu. 
Sem roupas que pudessem esconder pensamento e vergonha, percebeu-se poucos minutos depois acariciando um corpo. E depois outro e outro. Era simples, era fácil. Era nada além do que um apelo ao instinto. Ele e todos ao redor, naquela casa que oferecia sexo. Até a exaustão. 
Mas houve uma mulher diferente. Cor e cabelos diferentes. 
E houve, para ela, um homem diferente. Cheiro e pele diferentes.
E assim comprometeram-se pelo tempo do abraço. E do beijo. E de tudo o mais que puderam ter. Ali, naquele instante, tornando tudo melhor do que o lar congruente.
Na semana seguinte, Antônio resolveu que era hora de voltar. Ainda não compreendia por que, mas naquele ambiente soturno percebeu em si vida. Então, disse à esposa que teria enfadonhas reuniões que o impediriam de estar em casa no horário habitual. E correu feliz e apressado, como uma criança com sua prenda.
Esbaforido, ofegante e lutando contra o tempo, procurou a mulher diferente, mas não a encontrou. Divertiu-se com outra. E outra. E por fim, foi embora. Prazerosamente atendido. Despercebendo o vazio que o preenchia. 
Ainda pensando em encontrá-la, tentou mais algumas vezes a sorte, sem sucesso. E assim, construiu para si a hipótese de que o destino confabulava a seu favor, afinal ninguém realmente especial estaria naquele lugar ácido. Ou praticaria daqueles atos – não daquela forma. Em poucos minutos desconstruiu a mulher que mal existiu. Girou a chave na fechadura de casa e adentrou carregando consigo os dogmas ensinados na infância. Até o quarto. Até o claustro. Incólume. Convicto de que assim fora melhor. Deitou-se ao lado da esposa suplicante, cuja lingerie implorava pelo seu olhar. Mas, nada percebeu. E dormiu sem sonhar.
Pobre homem que vive no limbo, entre o instinto e o ideal. Buscou o clube libertino. Outras mulheres. Outros, outras, qualquer coisa. A busca era pelo novo. Era? Preferiu não entender. Escolheu arrefecer.
Pobre esposa que nunca se deixou ousar ou afrontar. Apenas silenciar. E sofrer. Sem prazer.
Pobre casal feliz cujas convicções lhe renderam a mais nobre prisão.
Aline Serfaty
Revisão: Fabiana Serra

Um comentário sobre “Prisões

  1. São tantos os motivos que para se viver uma relação sem “sal”… E também existem mil outros motivos para ter relacionamentos paralelos ou procurar novos caminhos. Filhos, condição financeira, insegurança, idade são alguns itens que pesam bastante na tomada de decisão e podem nos deixar prisioneiros por uma vida. E vamos combinar que toda separação é um rompimento forte, deixa marcas, traumas. Se falta tesão na relação, pode sobrar companheirismo, respeito, amizade. Sem contar na questão da solidão, que a gente só percebe à medida que envelhece. Jogar tudo pro alto precisa do convite enlouquecido da paixão.

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