Quarto 284

Registrou-se no hotel de luxo e recebeu do recepcionista o cartão magnético envelopado em papel claro, pano de fundo à logomarca do prestigioso cinco estrelas. Dirigiu-se ao elevador com passos carregados pelo peso das horas de voo acumuladas. As portas se abriram e inevitavelmente, viu-se refletida no largo espelho daquela caixa metálica. Apertou o número dois e encarou-se por alguns segundos. A beleza não era óbvia àquela hora, mas ainda que escondida, emoldurada por fios de cabelo que pareciam não encontrar prumo, reconheceu-se feliz e sorriu com discrição.

Quarto 284. Despercebendo a enorme coincidência, abriu a porta e entrou. Largou a bagagem para trás deixando com ela o fardo da viagem e jogou-se na cama. O sono logo tomou conta do seu corpo, desligando temporariamente os circuitos que a mantiveram vigil. Dormiu pesadamente.

O feixe de luz que adentrou o quarto e rasgou o breu, incidiu diretamente sobre seus olhos, acordando-a. Por alguns segundos perguntou-se onde estava, tentando recompor o quebra-cabeça da vida. Levantou-se, arrumando-se para o primeiro dos sete dias de trabalho que estariam por vir.

Alguns andares acima estava ele, em seu próprio quarto. Blocos rígidos de concreto separavam seus sentimentos, abafados pela engenharia da obra física e mental. Àquela altura, ele se perguntava se as brechas cavadas pela troca de olhares profundos ou pela sensualidade do balé verbal que dançariam poderia romper as barreiras imposta pelas circunstâncias da vida. Alguns metros abaixo, ela se perguntava o que sentiria no minuto que o visse.

Encontraram-se casualmente no hall do hotel. A voz embargou. O calor acendeu seus olhos, iluminou seu desejo e impulsionou seus movimentos. Pouco conversaram porque as palavras perdem o sentido diante da paixão. E assim seguiram-se os dias. Olhares furtivos, desejo disfarçado entre conversas fiadas e oportunistas nos corredores do cenário. Suas razões os mantinham na linha reta, mas seus corpos buscavam as curvas que inevitavelmente proporcionariam os encontros nas interseções da vida.

No último dia, tomada pelo tesão acumulado em doses homeopáticas de flerte, recorreu à coragem – ímpar. Disse-lhe apenas “venha!”. Tomaram rumo certeiro ao quarto 284 e já no elevador beijaram-se profundamente, delegando ao desejo o domínio de suas ações. Adentraram o pequeno quarto e ainda colados, jogaram-se na cama. As roupas saíram sem que percebessem para que suas peles pudessem se encontrar. As mãos aprofundaram-se em seus corpos e enquanto completavam-se, ela com a voz rouca, abusava da sensualidade, dizendo-lhe no ouvido palavras que o excitavam. O balé, até então verbal, tornou-se físico, ora lento e ritmado pelo amor, ora célere pelo tesão, dando-lhes o prazer que há muito buscavam. O cheiro do corpo misturado ao perfume caro instigava a libido, garantindo o encaixe perfeito. Em alguns momentos, paravam e olhavam-se para certificarem-se da intensidade a que estavam submetidos. Naquela noite, acolheram-se e fluidos, alcançaram o clímax.

Despediram-se sabendo que talvez aquela fosse a última vez. E ele ao abrir a porta que o levaria para fora daquela noite, percebeu a placa que identificava o número do quarto. Congelou seus movimentos por poucos segundos para então, dar alguns passos para trás e sussurrar no ouvido dela. “Dia 28/04 foi nosso primeiro encontro e também quando te disse que aquele seria o primeiro dia do início de nossas vidas.” Ela calou-se, perplexa.

De fato, o dia 28/04 foi o começo de algo novo. Algo complexo, profundo e doce, que permaneceria em suas memórias preenchendo as lacunas da vida. Vez por outra, ele se dá conta de que é dela que se lembra em longas viagens de carro e noites mal dormidas. Vez por outra, ele coloca as músicas que ouviam juntos. Vez por outra, ele pensa nela. Vez por outra?

Ela? Ela sabe que a lua dele está no signo dela. Estão capturados na sintonia da intensidade. Para sempre.

Aline Serfaty

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Revisado por Fabiana Serra

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8 comentários sobre “Quarto 284

      1. E eu? Fico muito feliz de sentir a minha palavra tocar a sua palavra, tocar você! Você mostra uma sensibilidade literária incrível!
        Não sei como você é como médica, mas como contista é maravilhosa! Muitos beijos! Desculpe-me pela brincadeira! Deve ser uma médica sensacional também!

        Curtido por 1 pessoa

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