O Homem e o Último Dia do Ano

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Era o último dia daquele ano e depois dos altos e baixos que vivenciou, viu-se compelido a buscar um remédio para todos os males. Bateu a porta de casa e saiu apressado, porque o desconforto era premente. Correu até a farmácia com o propósito de comprar algo que o fizesse mergulhar em um mundo feliz pelos próximos 365 dias.

“Em que posso ajudá-lo?”, perguntou o homem atrás do balcão, seguindo com o clichê: “Esse ano voou, não?”. Falácia, pensou. No seu mundo, cada dia teve um peso. E cada peso, a sua medida. “Ouvi dizer que aqui posso encontrar um remédio para minha dor”, disse em tom de brincadeira, procurando disfarçar a verdade e a esperança que aquela pergunta carregava. “Aqui temos remédio para a cabeça, barriga, coluna…” E sem esperar pelo final da frase, agradeceu, e continuou seu percurso. 

Esbarrou no homem musculoso que lhe deu um tranco e na mulher, que distraída, enviava mensagens. “Será que ninguém mais se olha?”, pensou. Virou a esquina e entrou na loja de produtos naturais. A balconista lhe desejou bom dia e colocou no rosto, um sorriso discreto. Ele pediu um remédio para sua dor – profunda, intermitente, avassaladora, renitente. Ela lhe ofereceu diferentes terapias, e prometeu-lhe a paz que ele ingenuamente desejava ser. Ele, então, titubeou, e quase se rendeu a outras curas, mas o que de fato buscava era algo aparentemente inócuo e rápido, como o deglutir em seco de um comprimido. Decidiu continuar seu caminho e disse adeus. 

Descontente, seguiu por alguns quarteirões, parando aqui e ali, buscando a cura para tudo o que sentia. Até que entrou na antiga lanchonete da esquina e pediu um suco de limão. Bebeu de um gole só, como faz quem anseia – por sede, por fome, por desespero. E ainda sem entender se fora pelo acre do limão ou pela voracidade do gole, lembrou-se da paixão inflamada, latente, vivida justamente naquele ano do qual se despedia. Sentiu saudades. Mas era final de ano, então insistiu no futuro e guardou a paixão na gaveta, como quem guarda a fantasia do último carnaval. Seguiu na última tarde do derradeiro dia daquele ano buscando o melhor remédio para si em outros cantos e refúgios da cidade.

Mas nada encontrou.

Nada.

Por fim, andou até a praia, onde ouviam-se ruídos e via-se balbúrdia. Em meio à treva, desejou luz. Desejou ser feliz. Todo, cada dia. Carregado de esperança, desejou o que sabia ser impossível. Buscou um remédio para a alma, uma pílula que o entorpecesse. Algo que o cegasse para o sentir. Algo que o livrasse da sua condição humana. E porque nada encontrou, ouviu seus gritos mais profundos. Sentiu o sabor da sua angústia. Tateou o próprio desespero. E viu-se perdido. E porque nada encontrou, ganhou a oportunidade de crescer. 

Permaneceu ali até os fogos silenciarem e o colorido do céu se apagar. E assim, enxergou o breu da sua alma e decidiu que naquele início do novo dia de um novo ano tornaria-se sólido. E deixaria o líquido escorrer pelo ralo da vida. E quando o sol raiou, abriu portas e janelas, e deixou vento e sorte entrarem. Em si. Encontrara, finalmente, a panaceia.

Aline Serfaty

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Revisado por Fabiana Serra 

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