Lado Negro

Sentada à mesa do requintado bar da zona sul, ela respirou fundo. Revirou a bolsa para encontrar o maço e o isqueiro, e acendeu o cigarro encarando o horizonte. Deixou queimar com intensidade, enquanto procurava o garçom para pedir o vinho mais caro, com o objetivo de digerir o indigerível. Olhou ao redor e percebeu-se acompanhada: tinto, amigas. Não poderia mais esperar. Tragou profundamente e contou sua história:

– Era o início. Mal acreditei quando soube que fui escolhida para aquele emprego. Como um banho que lava os poros, decidi que precisaria renovar. Comprei salto alto e vestido. Senti a vibração do novo. Respirei o apreço e fiz tocar uma música, tornando tudo especial.

Enquanto a olhávamos com curiosidade, prosseguiu:

– Ele era um dos donos da empresa. Nos apaixonamos. Foi um atropelamento mútuo.

Testemunhas do que se seguiria, percebemos a primeira dor: da revelação. Não, não fora alívio, angústia que era. Fora revolta, tornado, vento desregrado que atingiu nossa mesa derrubando normalidade. Instaurando tempestade. Vento que nunca se fez brisa e que anunciou a paixão que acendeu dois corações. E com mais um cigarro, ela continuou:

– Nossos corpos eram cúmplices. Dança, conversa, sexo. Despudor, encaixe, pegada. Sincronizados, coniventes, presentes. Um mundo só nosso, obsceno, obscuro. Tateamos, gozamos. Entreguei cor. Recebi cor e dor, binômio que me sequestrou.

Enquanto a ouvia, procurava entender a intensidade do que viveram. Busquei em minhas próprias paixões palavras que fizessem eco àquela narrativa, mas não encontrei rima. E em meio à intempérie colocada à mesa, acendi meu próprio cigarro. Ouvi:

– Foram muitos anos juntos. Nós três: eu, ele e a noiva. Marcou casamento. Lua de mel. Disse que não se casaria. Que cancelaria tudo e que ficaríamos juntos. Casou-se em uma noite linda de lua nova. E eu, quarto crescente que era, chorei sem compostura.

Mudas, choramos juntas. Sem lágrimas. Bebemos buscando substituir com o tinto o dissabor. Celebrando nossas vivências. Lua cheia. 

– Preciso contar o resto. Há sempre um resto. Dias antes do casamento, resolvi que precisaria dizer o que em mim se passava. Mas faltaram as palavras da boca, como as que uso agora – nó na garganta insistente. Sobraram palavras que sequestrei em sonhos e devaneios. E assim, escrevi, escrevi e escrevi. Em um papel, dei a ele um pedaço de mim. E permaneci com o que sobrou.

Por mais que tentasse, não sabia o que dizer, eloquência perdida ainda nos primeiros goles. E ademais, no teatro da vida, este era um roteiro que ainda não havia vivido. Então, olhei em seus olhos arregalados, expressivos, e me expressei também, refletindo seu olhar. Ela continuou: 

– Vocês querem saber quem era esse homem? Esse foi o homem que, no altar, leu para ela, a noiva, parte do que escrevi para ele. Em seus votos de casamento. 

Neste momento, entendi que na dança sincronizada da paixão há hemisférios escuros, jamais expostos. Lado oculto. Lado negro. 

Constrangida, a lua recolheu-se por entre as nuvens. Entre olhares, o vento soprou forte de novo. Levou embora a dor daquela noite. Até a próxima lua, até a próxima ventania. Nunca sabemos quando ela volta – dor insistente que é. Transcende o tempo. Permanece. Atenua. Agrava. Morre. 

Morremos junto.

Aline Serfaty

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Revisado por Fabiana Serra 

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4 comentários sobre “Lado Negro

  1. Sempre ouvi que a paixão cega. Perverte nossos sentidos. Perdemos a visão clara da realidade. Uma armadilha. Rascunhamos nosso futuro com essa pessoa ideal, que só cabe no nosso projeto. E nos agarramos a esse modelo fantástico enquanto existirem forças ou quando acontece a ruptura brusca. E vem uma dor enorme. Muito difícil fazer o coração entender que acabou, não tem volta. E que nós permitimos tudo o que aconteceu. Não lemos os sinais.

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