O Idoso e o Mundo Lá Fora

Parecia estar esperando – alguém. Abriu a porta e espreitou. Olhou ao longe, buscando… O cenário e ele eram peças de um quebra cabeça que não se encaixavam. As pichações com letras gordas, cheias, impunham ao muro os rótulos da modernidade. E ele ali no meio, enquadrado, observava. O chapéu escondia parcialmente seu olhar. Sua expressão passeava entre o plácido e o bruto. Ergueu os olhos e franziu a testa, deixando evidente as rugas do cenho. Parecia querer dizer algo. Mas nenhuma palavra se fez ouvir. Da esquerda para a direita, varreu a paisagem e suspirou. “Sim, o mundo ainda está aqui fora”, pensou. Atrás de si, bateu a porta. Mergulhou em seu universo sereno e esperou por mais um dia. Para abrir as mesmas portas – da vida – que passou. 

The Old Man and the World Outside

He seemed to be waiting. For someone. He opened the door and peered out, looking into the distance, searching. The man and his surrounding scenery were pieces of a puzzle that did not fit together. The graffiti in fat, full letters imposed signs of modernity on the walls around him. While he stood in the middle, framed, watching. The hat partially hid his gaze. His expression wandered between placid and brute. He raised his eyes and frowned, revealing wrinkles in his brow. He seemed to want to say something. But no word was heard. From left to right, he swept the landscape and sighed. “Yes, the world is still out there”, he thought. Behind him, he slammed the door and plunged into his serene universe. And waited for another day. To open the same doors – of a life – that had passed.

 

Aline Serfaty

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Fotografia por Syed Hoda

http://www.instagram.com/syedyeah/

7 comentários sobre “O Idoso e o Mundo Lá Fora

  1. O olhar sutil da escritora escancara a sensação de anacronismo e de solidão da personagem em relação à sociedade moderna, que nos coage a ter ternura por alguém que não conhecemos. Bravo!

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  2. Mais um conto-vertigem, Aline… Saio dele também assombrada com os descompassos, não só dos velhos, da velhice… De uma realidade em convulsão – paradoxalmente tão ‘a mesma’ e tão (in)diferente. Viver é um espanto cotidiano?

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