Coincidências

 

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Rue du Nil, número 5. Esse foi meu endereço nos meses em que morei em Paris. O prédio era pequeno e sem elevador, como muitos no bairro. De um lado, ficava um restaurante desativado e do outro, uma loja de tecidos africanos. Abed, o locatário do imóvel, me recebeu no primeiro dia, informando-me sobre as normas que deveria seguir. Colocou meu sobrenome na caixa de cartas e cedeu-me as chaves.

Seguindo a rotina de uma grande cidade, sobrepunha pressa à curiosidade e pouco falava com os vizinhos. Meses se passaram até ser apresentada ao dono da loja de tecidos africanos, um senhor de meia idade, baixa estatura e um pouco acima do peso. Seu nome era Charles Serfaty. Assim como minha família, a sua também viera do Marrocos em busca de condições que permitissem a sobrevivência. Conversamos e tentamos, em vão, encontrar algum familiar comum. No entanto, tudo o que para nós restara, era o sobrenome.

Penso no trajeto que meus tataravós percorreram, direto de Tanger para Belém-PA, onde se estabeleceram. Vieram fugindo de perseguições e com promessas de uma vida melhor durante o ciclo da borracha, no século XIX. Assim como Charles, meus antepassados também se envolveram com o comércio. Tinham um bar e uma loja de artesanatos e até a geração da minha mãe, passaram por inúmeras dificuldades, sobrevivendo à custa de pouca comida e muito estudo e trabalho. Hoje vejo que alcançaram a paz e a prosperidade que tanto almejavam e penso que não à toa, fui parar na Rua do Nilo.

Anos depois, quando retornei à capital francesa de férias, fui visitá-lo. Não me reconheceu de imediato. Precisou de alguns segundos para que seu sorriso encontrasse o meu. E então, disse meu nome. Percebi um senhor mais idoso do que o tempo que passara. Descuidado com a aparência, bebericava um whisky disfarçadamente, enquanto contava-me as poucas novidades. Tiramos uma foto e despedimo-nos. Dali saí pensando no que deveria ter-se passado em sua vida. Carreguei comigo a impressão de que no passado, ficaram seus sonhos. Seja por já tê-los conquistado ou por tê-los abandonado. Seu cotidiano era vazio de ambições. Vendia tecidos para alimentar-se, sem fome. Vendia tecidos para beber seu destilado, sem sede. Morria aos poucos e assim preenchia seu tempo. Fui embora, pensando em mim, nos meus sonhos e nas minhas trocas. Caminhei até meu restaurante favorito e troquei dinheiro por mariscos com fritas. Naquele dia, pareceu-me a melhor opção.

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