A Promessa

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Ainda era criança quando minha mãe prometeu ir à sinagoga todos os sábados. Anos depois, descobrimos que em nossa religião, promessas não deveriam ser feitas. Era tarde, o ritual começara.
Acordávamos cedo e seguíamos a pé para a sinagoga mais próxima. Enquanto conversávamos, olhava para baixo e escolhia, entre pretas ou brancas, as pedras portuguesas das calçadas de Copacabana. Falávamos quase nada sobre religião, afinal ela não poderia me ensinar o que não aprendeu. Quando finalmente chegávamos, sentávamos quietas e ela sussurrando, contava suas mazelas e pedia proteção. Enquanto estávamos ali, ouvia aquela língua que nada me dizia, tentando imaginar o que queriam me dizer. Olhava para todos aqueles símbolos e insistia em encaixá-los em minha memória e torná-los presentes em minha vida. Olhava para aquelas pessoas que tanta intimidade demostravam com a liturgia e olhava para ela, concentrada, instintiva, bruta. Seu bisavô rabino e seu pai, judeu praticante, pouco ensinaram aos descendentes, porque cedo partiram. Restaram as matriarcas que seguiam fielmente as tradições. E também, o sincretismo. Ao final de tudo, seu semblante plácido encontrava meus olhos curiosos, arregalados. Ao final de tudo, sua fé e meu ceticismo, digladiavam-se. Não era fácil passear por Copacabana aos sábados. O afago vinha da lanchonete de especialidades árabes, onde sempre parávamos no caminho da volta. Eu ficava com a esfirra e ela com o quibe, e com a boca ardida de pimenta, perguntava sobre a religião na qual nascemos. Poucas eram as respostas, afinal quem racionalizava era eu. Ela simplesmente acreditava. E selando o final de tantos questionamentos, com audácia me dizia: acredite também!
Muitos anos se passaram até que pudesse compreender cenário, personagens e roteiro. Eventualmente, ainda encontro aquela menina que caminhava ao lado da mãe por aqui, dentro de mim. E nesse caminho desencontrado e sem volta, sigo procurando a fé. Talvez um dia também faça uma promessa. Será tarde.

8 comentários sobre “A Promessa

  1. Histórias da infância trazidas para hoje nos renovam, nos obrigando a olhar para dentro… Adorei a história, fiquei imaginando as cenas. E vi minha história na dua história. Quantas tranas tem a vida! Beijos!

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  2. Aline, estou encantada! Como vc escreve bem, e consegue traduzir um sentimento, que é muito
    parecido com o meu! Uma religião difícil de entender… Mas que simplesmente faz
    parte da nossa vida de uma maneira tão forte, que acabo transmitindo também para o meu filho, sem
    Muito entender… Apenas passo…. Um dia, provavelmente, ele também irá se questionar!
    Mas com certeza, terão momentos na vida dele, como por exemplo o fato de comer uma simples “chala” e sentir um prazer que só nós judeus sentimos! Nem sei porque… mas como dizia sua mãe, é por simplesmente “acreditar”.

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    1. Simone, estou muito feliz que tenha gostado! Aqui no blog tem de tudo: histórias baseadas em fatos reais, como essa e as que compõe a série França, de quando morei lá; histórias que misturam criação e realidade e ainda as de pura criação. Escrevo em forma de conto ou curtíssima, esta última tendo sempre uma foto como pano de fundo. Na verdade, nas curtíssimas, crio as histórias a partir da foto, como por exemplo, nas curtas da “Sra do Casaco Vermelho” ou no caso de “Imperfeições”, mais recentemente.
      Em relação ao último conto, “A Promessa”, acredito que ser judeu está em nossas almas. Não há como mudar e é justamente por isso que todas as tradições e símbolos têm tanto valor. Quando acendemos as velas de shabat, ou quando escutamos o shofar, algo dentro de nós se aquece e é esse calor que transmitimos aos nossos filhos.
      Beijos

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  3. Aline, filha muito querida, obrigada por esta linda mensagem. Adorei o texto! Foste buscar, no relicário das tuas recordações, a nossa História de Vida. Tocou no fundo da minha alma. São lembranças que, jamais, serão apagadas da nossa memória. Parabéns, por seres, além de, grande médica, uma excelente escritora. Tenho o maior orgulho de ti.

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