Dor

 

Era janeiro e o calor inerente a qualquer um dos trinta e um dias do mês fervilhava seus pensamentos, que embora entrassem em ebulição, não evaporavam. Permaneciam retidos na rigidez da caixa mental. Naquele manhã, a tônica do dia se fez perceber no sonho da madrugada, fiel prenúncio do que se seguiria. As imagens vívidas invadiram sua noite e permaneceram por tempo suficiente para lembrá-la de que ele ainda estava ali. Acordou com o corpo pesado, desanimado, atado à cama. De olhos fechados, reuniu forças para se levantar. E depois, para um café – preto, forte, capaz de despertar lembranças adormecidas, empurradas para dentro da gaveta da vida, que mantinha fechada – protegida de si.

A voz baixa, implorando para permanecer dentro, saía apenas para protocolares cumprimentos. E o corpo retraído entregava aos mais observadores seu estado de espírito. Era como se o falar houvesse se transformado em um despejar de sons desconexos, e o ouvir um fardo. Qual era o fardo que carregava, perguntou-se.

Ainda sofria pela história de amor. Sentia falta do flerte, das conversas sem fim e da emoção que descia da cabeça ao ventre, inundando seu corpo com as mais deliciosas obscenidades. E naquele exato dia, depois daquele exato sonho, soube que era hora de sentir – a falta. Falta do tempo que parecia parar, congelar, mas que, impiedoso, seguia. Racionalizou tudo o que pode. Ouviu as lamúrias de sua paixão adormecida, ponderou com a razão descolorida e continuou a sentir – dor. Perguntou-se por que não fora ensinada a lidar com suas agruras. Lembrou-se dos jargões aprendidos durante a vida que a afastavam do âmago: “tudo passa”, “distraia-se”. Para ela, isso já não fazia sentido. Afinal, tudo passa. Poucos marcam.

Moribunda, viveu o dia como uma sobrevivente, andando com passos que a levavam para os rotineiros lugares, nos rotineiros horários. Sem novidades. Nem mesmo um pedido inusitado de um transeunte. Nem um doce diferente na sobremesa. Nada. E assim as horas passaram. Len-ta-men-te.

E embora ela quisesse dizer para todo mundo que sua dor havia sumido, mudado e até se transformado, calou-se. Porque não poderia mais mentir. Nem para si. Nem para os outros. Permaneceu na obscuridade do desconhecido para enfim, conhecer-se e descobrir o que sentia. Pela primeira vez não lutou. Acolheu o rancor e o amor – que não acabou. E reconheceu a dor – da renúncia do final feliz que criou.

Aline Serfaty

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Revisado por Fabiana Serra 

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Pintura em aquarela feita por Fernanda Serra       

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3 comentários sobre “Dor

  1. Aline, que sentimento forte essa tal “dor”. Acaba com a gente. É devastadora. Enlouquece. Só mesmo o tempo pra ajudar.
    Seu texto reflete bem o auge desse sofrimento.

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