Nosso marinheiro querido

Uma homenagem, do dia 12/01/2015

Nosso avô, nosso contador de historias,

Crescemos ouvindo você contar histórias.

Lembro com orgulho da história de você ser aceito na Escola Naval sob a condição de engordar 20kgs de músculo (e conseguir); de ser o primeiro da turma, sempre, um aluno exemplar.

Lembro de ouvir curiosa sobre a família italiana, sobre uma prima sua bonitona, sobre o avô músico e uma casa na Viúva Lacerda, rua onde hoje eu moro. As histórias da Guerra, de caça-submarinos, de parar em tantos portos, de chegar com uma família na Holanda, e voltar com um porta-aviões.

Lembro, com afeto de menina, da sua história de como roubou o coração da nossa avó, voltando no fim da guerra um capitão tentente fardado, galã, finalmente conquistando a loirinha da ‘beleza do diabo’ – isso você mesmo nos contou, aqui nesse clube, anos atrás, na celebracao dos 50 anos de casados.

Lembro das histórias que você conta da nossa história, de você me buscando na escola em Londres e eu te estranhando, de você conhecendo meu pai, e dos outros primos. Do Erick, o bebê de um milhão de dólares. Do Breninho, o menino que negociava botões no colégio. Da Daniella, a moça mais linda do pedaço. Sobre mim, a inglesinha que cantava Xuxa. Dos seus filhos, que você ama tanto e que te louvam, literalmente. Dos seus sobrinhos, que você trata como filhos também. E hoje você conta de filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, sobrinhos-netos, para quem puder ouvir.

Uma das histórias que você mais conta, marinheiro querido, é da casa de Mambucaba. Não bastava Angra dos Reis. Você queria mais longe. E nos conta de navegar a Costa Verde toda por dois anos, até encontrar a praia perfeita. Onde ninguém conseguia chegar. De comprar uma casa de pescador. Eu ouvia, e te imaginava navegante, meio de camisa listrada, calças rasgadas e sandalia havaiana, chegando de canoa, descendo na praia e avistando a casinha, como naqueles filmes de ilha deserta. Esse é o impacto das suas histórias. Você nos teletransporta.

Temos o prazer de ter um avô que saiu no blog da Lu Lacerda. Que sabe sobre os 149 caracteres do Twitter. Que já pediu um iPad de aniversário. Que dá prancha de surf de Natal aos netos, e escolhe pessoalmente cada presente para cada mulher da família.

Que insiste em almoçar rabada, e nos diz que não tem apetite. Que mostra a qualquer convidado, em qualquer visita, a placa de mérito hidrográfico que fica na sala. Que circula num carrinho elétrico e vai tomar caipirinhas vendo o por-do-sol no Arpoador.

Que vai de Londres a Cabo Frio para estar com a família. Que acompanha cada formatura, cada apresentação, quer ver cada foto e cada viagem, para estar com a família. Que gosta do seu whisky diário…, e não perde nenhuma notícia.

Nosso patriarca querido, os seus cem anos estão aqui, a nossa volta, cada convidado, cada abraço, cada homenagem, cada foto.

E você continua navegando. A maior e melhor história do nosso contador de histórias. Nosso marinheiro querido.

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