Até a Próxima Esquina

leblon3

Existem recordações que reviram sentimentos. Resgatam do fundo de algum lugar perdido o que não queremos mostrar. Desnudam.

Era uma sexta-feira. Uma festa de aniversário do amigo de uma amiga. Um prédio da zona sul. Ela ainda era capaz de se lembrar da disposição dos cômodos da sala e da janela enorme de frente para uma rua movimentada do bairro. Apesar de não conhecer quase ninguém, rapidamente conversava, ria, bebia e exibia uma leveza no andar e no olhar. Uma leveza que hoje não tem mais. Eles chegaram juntos. Dois amigos para aquela festa. Um fora convidado, o outro, não. Assim como elas. Ele e ela começaram a conversar. Despretensiosos. Descobrindo coincidências. Trocando olhares furtivos e sorrisos tímidos. Ficaram a noite toda naquela janela, sem perceber que o tempo e os carros passavam. O sentimento veio forte, avassalador, tomando conta do corpo que esquentava, da boca que beijava e da cabeça que sonhava. E agora, quando de novo? Foram várias vezes de novo. Sempre com três opções de bar ou restaurante ao telefone, ele mantinha o controle daquilo que ela parecia escolher. E apesar da forte conexão que sentiam, algo pairava no ar. Algo que aos 20 anos de idade, ela não sabia identificar. O tempo passou e sem telefonemas ou explicações, ele sumiu. Sem nenhuma história que pudesse contar para si mesma. Ou uma mentira que se transformaria em verdade depois de incansavelmente repetida na casa da sua melhor amiga, onde invariavelmente sentia-se acolhida, ouvindo música e fumando cigarros.

Anos depois, ela soube que ele fora morar em outras cidades. E em um dia comum, de uma semana nada especial, ela recebeu uma carta. Nela, ele revelava seus desejos e dizia saber que, um dia, acabariam se reencontrando, depois de viver o que julgou ser suficiente. Depois de saciar sua sede de juventude. Ele entregara ao destino o que ela teria veementemente buscado. E agora, com movimentos reais, tentava restabelecer o contato perdido à espera do acaso. Ela, desconsertada, precisou de algum tempo para entender que não foi necessariamente aquele primeiro encontro, naquela festa, que mudou sua vida. Marcou sua vida receber essa carta, que respondia tantas perguntas feitas no passado e que chegava carimbada, selada com cunho de realidade, oferecendo repostas escondidas pelas inseguranças e incertezas dos seus 20 anos. Teriam ficado juntos?

Não ficaram. Não quiseram. Não buscaram. Se reencontrarão por aí, nas esquinas do bairro onde se conheceram. Trocarão olhares. Esconderão desejos. Até a próxima esquina. Até a próxima história. Sem cartas. Seguindo a retidão da vida que escolheram.

Um comentário sobre “Até a Próxima Esquina

  1. Aline, Talvez pela minha formação acadêmica eu seja mais afeito à crítica construtiva do que ao elogio fácil. Assim eu prefiro guardar os elogios para quando vejo algo realmente excepcional. Foi uma grata surpresa a beleza da sua escrita. Adorei realmente seus textos que são de grande qualidade e acho que você tem mesmo de dividir com os outros este seu dom. Parabéns!

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