Arenas

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Ocupou uma das quatro cadeiras da única mesa posicionada de frente para o mar. O garçom, pensando que sentia fome, ofereceu-lhe o cardápio, mas ela declinou. Em meio à confusão de tantos fregueses, o atencioso rapaz não percebeu que, para ela, bastaria um café. Nas últimas horas, lua e sol alternaram-se, acompanhando-na na jornada que parecia não ter fim. E seus pensamentos, excedendo o limite do corpo, buscavam espaço nos outros três lugares da mesa. Era o caos.

Na rua em frente, o conhecido carro se posicionou na única vaga disponível. Dele, um homem ainda jovem e com belos traços saiu, batendo a porta com firmeza. Caminhou em sua direção, acendeu o primeiro cigarro e sem nada lhe dizer, sentou-se ao seu lado. O silêncio não perdurou. Munido de coragem, disparou palavras, que certeiras, atingiram-na como raios. Era o fim daquela história. Ela, estupefata, mirava a fumaça que zanzava à sua frente. Seus sentimentos, ainda em ebulição, insistiam em sair pela boca. Precisou valer-se de um último gole do líquido acre que a acompanhava para empurrá-los de volta pela garganta. No entanto, o descontrole era iminente e o silêncio foi quebrado com um grito e um palavrão.

– Seu filho da puta!

E de supetão, levantou-se arrancando-lhe da mão o resto de cigarro. Tragou fundo e se fez surgir em meio às cinzas que permeavam aquele cenário desgastado. Saiu caminhando com passos largos para se afastar da dor. Ao longe, viu algumas pessoas reunidas na calçada e seguiu até lá.

A casa era a de número 66 daquela rua e o ambiente, acolhedor, fora decorado com esmero para a inauguração de um espaço zen. Deu mais alguns passos em direção ao interior e viu um jardim. Cogitou sentar-se no banco que ali estava, mas sabia que não poderia mais suportar a retidão. Nem mesmo a do assento. Buscou algo mais condescendente, que se moldasse naturalmente ao seu corpo e viu almofadas bem torneadas e de cores vívidas. Sentou-se. Sua testa franzida e seu olhar perdido, confrontando o chão, denunciavam desassossego.

Exausta, recostou-se sobre a pilastra e aceitou um pouco da rigidez oferecida pelo concreto. Quis olhar para dentro e deixou que suas pálpebras caíssem, entregando-se ao mantra e ao incenso, aceso ao fundo, e desejando que a levassem para longe de sua própria arena.

Enquanto esteve ali, encontrou o que entendeu ser paz.

7 comentários sobre “Arenas

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